terça-feira, 30 de outubro de 2012

Roubo

O ladrão conhece o instante exato do ataque, age na ausência, pontual nas ocupações alheias. Quando alguém o vê, aprende a dissolver, lentamente, os próprios pecados. Quando ninguém observa, com cúmplice à espreita ou não, repete negações como quem reza mentiras. Por dentro, ri com gosto, nas longas tardes frias da consciência. Visualiza a tristeza da vítima, veste a própria máscara, cobre-se para não ser visto… o ladrão abriu a mala. Na sala, não havia luz. Achou o cenário ideal. A chama do desejo bastava-lhe para avançar na direção do erro. — olhou — — virou — Mistura-se entre os outros, onde há mais gente. Finge conversa, mas segue em frente. Os olhos denunciam o interesse: o tesouro. Suspira de alegria, esfrega as mãos, embriagado de felicidade. E a vítima, desesperada, no instante da verdade, tenta parecer inocente. Por fora, o medo. Por dentro, o esconderijo. Foge dos outros e aperta-se a si própria na escuridão.

domingo, 30 de setembro de 2012

Razão

O amor já não é amor se se altera, se se dobra em arco com a distância do partir. Oh não — é flecha e arco, que enfrenta tempestades sem nunca tremer. O amor aparece quando menos se espera, de onde menos se imagina. Amei-te desde o instante em que te vi, mas preferi esconder este amor e sofrer em silêncio. Amei-te sabendo que jamais serias meu, e ainda assim continuo a amar aquele que o destino me deu. Um dia amei alguém para te esquecer. Hoje, para te esquecer, não consigo amar ninguém. Às vezes paro, viro-me e suspiro. Analiso o mundo e chego a uma conclusão: ainda tenho razão para continuar, olhar as tuas imagens com um sorriso sereno. Entretanto, é curioso observar como uma criança se transforma em alegria. O destino separou-nos, mas continuo a amar-te.

sábado, 22 de setembro de 2012

O amor no início

Uma das coisas que aprendi é que se deve viver sem riscar o futuro ao longe. No começo do amor, tudo é perfeito: não há problemas, nem complicações. Milhões de palavras são gastas logo na primeira semana. No início, só se conjuga o verbo amar. Depois do fim, aprende-se o verbo magoar. Vive-se perdida entre tantas falsas máscaras que o outro usa. Alguns casos parecem amor, e juram ser definitivos para amar. Mas, afinal, é o contrário: não querem amar, querem apenas estar presos à palavra amar, e não à solidão. O amor que se diz inseparável é, muitas vezes, o que menos dura. Porque no começo somos extraordinários — pelo menos na ilusão.

terça-feira, 21 de agosto de 2012

Inveja

Tanta inveja, tanta humilhação. Senti-me perdida, esmagada, só. Desde o instante em que me espetaste uma faca nas costas. Dei-te a minha amizade e rasgaste-a. Deixei-te caminhar sobre o meu caminho e tentaste mandar no meu coração. Não sou o animal que pisas quando queres. Sou serva do meu Criador, não dos invejosos. Vim a este mundo para cumprir a minha missão, não para criar inimigos nem deixar que me esmaguem.

domingo, 8 de julho de 2012

Ninguém me ouve

Ninguém me ouve. É como se eu estivesse nas nuvens, a gritar em vão. Por isso, resolvi mascarar-me sob o nevoeiro. Havia um ímpeto a escaldar-me no sangue; nem um raio de sol conseguia ver, perdida na imensidão do universo. Decidi subir montanhas altas, na esperança de ver a luz resplandecer. É uma triste verdade esta pouca — ou nenhuma — fé no desinteresse dos outros. Não há explicação mais difícil de aceitar do que aquela que se justifica num sentimento nobre, renunciado aos próprios desejos e à própria qualidade de quem gosta de dar. É preciso duvidar de nós mesmos para aprender a desconfiar do próximo. Porque, afinal, a mais exata — e a que nunca falha — natureza do coração humano só se alcança pelo estudo do próprio coração. Esse é o único que nos é claro. Talvez por isso as melhores almas sejam sempre as mais ingénuas.

sexta-feira, 11 de maio de 2012

O meu espaço

O meu espaço parecia-me pequeno demais para conter tanta alegria. Naquele instante, precisava da chuva para me molhar por dentro. Há em mim uma simpatia irresistível por ti. Ocupa um lugar na minha vida, mesmo quando tento afastar a tua imagem do pensamento. Nunca imaginei que a minha vida pudesse ser tão bela, nem tão cheia. As lembranças vieram-me ao espírito sem sombras, sem obstáculos. A tua insistência surgiu quase sem aviso. O teu olhar trazia inquietação. Não encontro palavras para romper este silêncio. O arrependimento passou como um relâmpago. Procurei lembrar os nomes daqueles cuja felicidade invejei. E percebi: não havia ninguém mais feliz do que eu. Tudo à minha volta tenta destruir. Tudo o que penso ser bom é chamado de mau. Criticam-me com o olhar, ao passar só ouço gargalhadas. Não sou nada — mas nada me deita abaixo. Pelo contrário, ignoro. Não digo tudo o que queria dizer. Perdoa-me, assim como perdoei o mal que me causaram até agora. Se algum dia tentarem separar-nos ou se algo me acontecer, lembra-te disto: não somos perfeitos, mas mostramos ao mundo que o nosso amor é mais forte do que aquilo que tentaram causar. Já saboreei os teus lábios e sentimos o poder a correr nas veias. Não compreendo — só sei o quanto te amo, mesmo quando interferem no nosso amor. Amo-te como quem fica presa ao solo, como se ali estivesse sepultada uma parte do meu coração. Os meus pensamentos estão cheios de amor.

É sempre difícil

É sempre difícil consolar uma dor que não se sente. Só lamento não ser capaz de acalmar o meu próprio sentimento. Um suor frio cobriu-me o rosto. Para quê ouvir as palavras dos outros, se pediam o fim do meu romance, quando eu já amava demais este amor? Chegou o tempo de enxugar as lágrimas, para que não me vejam, para que não saibam que estou a chorar. A solidão do caminho lembrava-me o vazio do coração. Então as lágrimas voltaram a cair — chorei convulsivamente. Depois fiquei sem forças. Olhava as nuvens a passar e deixava os pensamentos correrem depressa por paisagens abandonadas. O meu encanto inesperado tinha-o, com certeza, transtornado. Recordo-me da última vez em que o beijei sem medida. Deixar de amá-lo seria mentir a mim própria, a cada instante. Sentia as lágrimas subirem-me aos olhos. O amor que despertou em mim abriu o coração ao entusiasmo. E os meus lábios ainda guardam a sua imagem neste mundo solitário.

terça-feira, 10 de abril de 2012

Amor não correspondido

Não é fácil quando um homem se fecha no silêncio e uma mulher ainda quer acreditar. É querer alguém e não poder tê-lo. É tentar fugir e levar um tiro no peito. Como é difícil viver um amor impossível com o coração em chamas. Sem poder ter o amor que sempre desejou, o corpo treme enquanto o olhar atravessa a alma de forma avassaladora. Ficamos apenas no olhar, sem saber como sentir, como tocar este corpo ausente. Fica o desejo de lembrar o sabor desses lábios doces que sabem a mel. É doloroso existir sem conseguir seguir em frente. Difícil esquecer este amor não correspondido. Vontade de desviar-se, mas também de provar o fruto proibido.

quarta-feira, 4 de janeiro de 2012

O mar

Eu vou ficar perto do mar, quero recordar aqueles tempos em que eu era apenas pessoa. Vou ao mar — ou melhor, entro nele. Porque o pôr do sol mais bonito que já vi foi lá. E é ali que quero continuar a vê-lo. Tenho muitas recordações que quero guardar. Se alguma vez sorri, foi lá que comecei. As ondas são como páginas da minha vida: vão e vêm, calmas ou perigosas. O mar é o meu mundo silencioso, onde a inquietação não me atinge.