sábado, 16 de março de 2013

Vítima

Escrevo para esquecer os sofrimentos, para tentar calar esta dor que chora em silêncio sem ninguém a quem contar. Todas as preocupações, todos os problemas, talvez acabem quando eu partir. Todo o sofrimento que carrego levarei ao Pai — porque ele disse que eu herdaria todos os seus pecados. Ainda ecoa em mim o dia em que me disse que eu não devia ter nascido. A criação tornou-se o meu pior inimigo. Vejo como ele se transforma e, às vezes, pergunto a mim mesma se é mesmo meu pai. Essa dúvida traz lágrimas aos meus olhos. Permaneço de lado, observando. Sepultei tudo o que sentia, mas as feridas da humilhação continuam abertas, excessivamente afiadas. Luto pela liberdade sem saber o que é certo nem o que é errado. Pergunto-me quanto tempo isto ainda vai durar. Por que vim tão longe, tão rápido? Por que me sinto covarde? Os meus pés tremem na rua. É o medo que me chama pelo nome. No meio da cidade, olho em redor e quase não reconheço o que vejo. As lágrimas já não caem — são usadas apenas para executar a dor.

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